Discurso do Élder James E. Faust, Assistente dos Doze, na Conferência Geral de outubro de 1975, publicado na revista Liahona em fevereiro de 1976.
Numa manhã tranquila da semana passada, saí do escritório em São Paulo, Brasil, e dirigi-me para o local do templo; a neblina começava a dissipar-se. Ao caminhar pelo suave aclive da rua do templo, observei, com grande interesse e prazer, que o terreno já está sendo limpo e as estacas já estão sendo fincadas ao solo; essas pequenas estacas marcam as dimensões de um novo templo que logo será erigido para a glória de Deus, com infinitas bênçãos para os seus filhos da América do Sul, um templo diferente de qualquer outro edifício que se encontra em pé na América do Sul.
De pé, onde ficaria a porta de entrada, lembrei-me de como, há trinta e seis anos, meus companheiros e eu desembarcamos do navio em Santos, após vinte e um dias no mar, dirigindo-nos, em seguida, para São Paulo. Havia outros missionários no mesmo navio, a caminho da Argentina e Uruguai, que eram duas missões relativamente novas no continente.
Havia, na América do Sul, apenas um punhado de membros na Igreja, quase todos imigrantes da Europa e convertidos lá. Enquanto pisava o terreno onde esse edifício novo, especial e dispendioso será erguido, lembrei-me de como parecia difícil e impromissor o futuro da Igreja na América do Sul há trinta e seis anos. Em toda a missão tivemos apenas três batismos num ano, a despeito dos laboriosos esforços de mais de setenta missionários; ainda não tínhamos a tradução de Doutrina e Convênios, Pérola de Grande Valor e do Livro de Mórmon para o português. Nossas reuniões eram realizadas em pequenas salas, impróprias para a grandiosa mensagem que tentávamos divulgar. Frequentemente, tínhamos que varrer essas salas antes da reunião, para retirar as garrafas e o lixo deixado pelas pessoas que tinham festejado na noite anterior. Era sempre difícil e bastante desencorajador.
Em contraste, houve, no ano passado na América do Sul, mais de oito mil batismos; existem atualmente vinte e duas estacas e dezessete missões com mais de cento e cinquenta e dois mil membros no vasto continente; e o trabalho apenas começou. Nossa primeira grande geração de Representantes Regionais da América do Sul e de presidentes de estacas e missões é representada por homens de negócios, inclusive banqueiros, comerciantes, proprietários de fábricas e profissionais; trata-se de homens de grande capacidade e fé.
Maravilho-me de como essas coisas se tornaram realidade pelo Espírito de Deus; certamente é o cumprimento daquilo que Jesus disse aos seus primeiros apóstolos: “Eu te darei as chaves do reino dos céus” (Mat. 16:19). Vendo tudo isso de perto, não posso duvidar de que seja o trabalho do Senhor.
O que tem acontecido no Brasil aconteceu em outros países também. No dia em que me achava no local do templo, o Presidente McAllister, da missão La Paz, da Bolívia, escreveu: "ainda estamos admirados com o crescimento da Igreja desde que estivemos aqui anteriormente. Quando partimos, em 1967, havia pouco menos de 300 membros, comparados com os oito mil e quinhentos atuais. O Presidente Bradford, apoiado ontem como Autoridade Geral, escreveu sobre o Chile: "por ser tão nova a Igreja no Chile, admiro-me da força e habilidade de muitos desses locais. Certamente as chaves do reino foram entregues aos nosso profeta atual e aos apóstolos contemporâneos, da mesma forma que foram, antigamente, conferidas por Cristo".
Na semana passada, no local do templo, enquanto pensava e ponderava, avancei para o local onde as dependências do templo serão erguidas. A neblina já se dissipara de modo que pude divisar, à distância, a grande cidade de São Paulo. Lembro-me de que, quando jovem missionário, presidi o trabalho nessa cidade, com treze missionários e cerca de trezentos membros. Existem, atualmente, quatro estacas e cem missionários nessa cidade; existem também estacas nas cidades vizinhas de Campinas e Santos.
Este grande progresso na América do Sul foi conseguido em grande parte pelo sacrifício e dedicação de centenas de missionários e suas famílias, bem como de dedicados presidentes de missão nos Estados Unidos e Canadá. Esta fonte de liderança está mudando; no Brasil, na missão Porto Alegre, existem cento e trinta e seis missionários, dos quais cinquenta e oito, ou seja, quarenta e três por cento, são brasileiros. Todos os quatro presidentes das missões da Argentina são originários da América do Sul. Como pode alguém que vê isso como eu vi, negar que é o trabalho de Deus?
Naquela manhã na semana passada, caminhei em direção aos lugares santos do templo, tentando determinar, pelas estacas, onde seria a sala do selamento; já parecia um lugar santificado. Mentalmente, visualizei os jovens casais, limpos e puros, de mãos dadas e sorriso nos lábios, muitos com a tez morena contrastando lindamente com as roupas alvas, os quais irão a esse local sagrado para se casarem pelo poder do Santo Sacerdócio de Deus, para o tempo e a eternidade. Foi fácil imaginar a grande alegria de famílias inteiras que se dirigirão a esse local para serem seladas pela autoridade divina, numa associação familiar eterna, por causa de seu merecimento. Virão dos desfiladeiros e planícies elevadas dos Andes; da orla marítima; virão das grandes cidades. Nesse local, as portas do reino serão abertas para aqueles que já morreram sem oportunidade de aceitar as bênçãos do Evangelho de Jesus Cristo aqui na terra.
Além disso, os membros dignos receberão as ordenanças relativas à viagem eterna da humanidade ao potencial e desenvolvimento inesgotável da alma humana. Isso tudo foi proporcionado por um Pai benigno, justo e amoroso para toda a humanidade, permitindo àqueles que participaram dessas ordenanças esclarecedoras, elevarem-se ao máximo do potencial nesta vida e em toda a eternidade, numa associação infinita com seus familiares, na presença do Criador.
Tendo isto em mente e com os olhos cheios de lágrimas, lembrei-me de ter ouvido a respeito de um ótimo presidente de estaca da América do Sul dizer que, quando fosse à conferência geral em Lago Salgado, ele e sua esposa teriam que decidir por sorte entre dois dos cinco filhos que levariam consigo para serem selados no templo; são necessários quarenta e três soles para perfazerem um dólar. Mas agora seus planos mudaram - estão planejando levar todos os filhos para o primeiro templo da América do Sul. Um seu irmão, presidente de outra estaca na mesma cidade, nunca teve o privilégio de receber os “endowments” no templo com sua esposa e família.
Naquela manhã, há uma semana, no local do templo de São Paulo, caminhei um pouco mais para trás, ainda dentro do local onde o templo de erguerá. Sabia onde estava, por ter olhado várias vezes as plantas. Sempre fico emocionado e propenso às lágrimas quando olho as plantas. Encontrava-me bem em cima do local onde será construída a pia batismal. Graças ao Presidente Kimball, da mesma forma que nos outros templos a partir de Nauvoo, haverá uma fonte sobre doze bois representativos das doze tribos de Israel. Aí irão os jovens, cheios de regozijo e entusiasmo próprios da juventude, para realizarem as sagradas ordenanças do batismo vicário em favor daqueles que não tiveram a oportunidade de serem batizados em vida. Foi fácil imaginar o prazer experimentado por aqueles que irão batizar-se e a grande alegria daqueles que esperam há tanto tempo pela ordenança salvadora em sua viagem eterna. Senti-me grato por Jesus ter dito aos apóstolos: "E eu te darei as chaves do reino dos céus". Contemplando tudo isso, não poderia duvidar de que esse é o trabalho de Deus aqui na terra.
Chegara a hora de caminhar por fora dos limites formados pelas pequenas estacas fincadas no chão, marcando a dimensão do tão aguardado templo. Tentei imaginar como o alto frontispício será. Ao mesmo tempo, tentei contemplar o dia em que os baixos e sérios índios da Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Paraguai se dirigirão para aquele lugar, e olharão esse mesmo frontispício. Quisera saber se alguns deles não gostariam de admirar o fino artesanato do edifício comparando-o com a qualidade do artesanato dos muros sagrados dos edifícios de seus antepassados, ainda em pé em Cuzco, em Machu Picchu e em vários outros lugares da América do Sul; eles também tiveram seus templos.
Esses descendentes dos Lamanitas e outros são indivíduos com um grande passado, e devido ao poder esclarecedor do Evangelho de Jesus Cristo, têm também um grande futuro. Um deles foi apoiado no outro dia, como Autoridade Geral da Igreja. Recentemente, mais de 8.000 deles se reuniram na “Plaza de Armas” em Cuzco, Peru, para ouvir a geração Lamanita da Universidade de Brigham Young; o seu dia está chegando.
O que esse templo, que está prestes a ser erigido na América do Sul, significa para o seu povo? Significa grandes e duradouras bênçãos. O Presidente Kimball disse, recentemente, em Tóquio, ao anunciar a construção do primeiro templo no Extremo Oriente: “Nenhum templo foi construído sem sacrifício e trabalho árduo” (Discurso proferido na conferência de 9 de agosto de 1975, pág. 12). São precisos muitos pesos, escudos, soles e cruzeiros para inteirar um dólar. Por exemplo, os fiéis membros da Igreja no Chile arrecadaram, no mês passado, 1.002.178 escudos para a construção do templo, o que equivale a $ 387,90 dólares.
O Espírito de Deus tem se manifestado sobre os países da América do Sul, desde os dias de minha juventude. Quando era um jovem missionário ali era muito difícil. Como vai o trabalho do Senhor ali, agora? Problemas? - existem muitos; desafios? são grandes, mas o progresso é quase inacreditável. O que disse a respeito da América do Sul pode ser repetido a respeito de outras partes do mundo. Esta é uma Igreja mundial e temos visto apenas o princípio. Tendo visto tudo o que vi na América do Sul, não posso negar que este é o trabalho de Deus. Convido todos aqueles que possam ter dúvidas, mas que sejam sinceros e honestos de coração, para inquirir quanto ao que está gerando a força que está por trás deste grande movimento. É o poder do amor - o amor a Deus, à família e ao próximo. Como Jesus conferiu as chaves do reino a um profeta vivo e aos profetas contemporâneos, este amor pela família e pelos outros pode ser tão eterno quanto a alma humana. Jesus disse aos apóstolos no passado: “E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mat. 16:19).
Testifico que é por essas mesmas chaves e esses mesmos poderes que este maravilhoso trabalho prosseguirá por toda a terra, no nome sagrado de Jesus Cristo. Amém.